Patriotismo ou xenofobia

Dedicado aos amigos que fazem Letras-Bacharelado na UFRGS.

Concordo que é um despropósito lojas utilizarem os termos “sale” ou “30% off”, em suas vitrinas no lugar de “liquidação” ou “desconto”, mas daí escrever um projeto em que uso de estrangeirismos fica proibido, quando houver um vocábulo nacional, vai além do ridículo. É algo entre o patético e o grotesco – entenda grotesco no seu sentido original, que é aquilo que suscita o escárnio. A alegação de Raul Carrion é que o projeto visa proteger o idioma pátrio e evitar “macaquices” brasileiras. Pergunto: o que ele quis dizer com isso? Francamente, não compreendi o projeto, não compreendi o que ele quer legislar e não compreendi porque foi posto em votação.

Antes de tudo, desde quando o plenário estadual tem qualquer direito sobre o “idioma pátrio”? Eu sempre pensei que o idioma fosse do povo e não da Assembléia Estadual, ou pelo menos é o que se aprende na universidade. Assim nascem as línguas: uma população utiliza um idioma e esse idioma evolui. Para evoluir, um idioma sofrerá modificações que se darão através da escrita, da oralidade, da incorporação de novas expressões e/ou palavras, sejam elas traduzidas, sejam em sua forma original. Idioma nenhum fica estagnado e, se ele assim o ficar, morrerá. O próprio “Idioma Pátrio” é uma língua que evolui. Se o Latim não tivesse se modificado, o que seria do Português? O projeto de lei não é só descomedido por ser xenofóbico, mas também por ignorar a tradição do idioma pátrio. Ou será que aqueles deputados que votaram a favor de tal projeto esqueceram que o nosso Português não é só uma evolução do Latim, mas também é uma variante do Português de Portugal, e que em sua gênese o nosso Português tem espanhol, francês, inglês, árabe e um pouco de todas as línguas de todos os povos que um dia colonizaram o Brasil, sem falar das milhares de contribuições indígenas, tão ricas e tão esquecidas. Aliás, quando falamos idioma pátrio, de que pátria estamos falando? Portugal, pátria “mãe” do Português, ou do Brasil? Porque são línguas diferentes. O próprio português brasileiro não é único para ser protegido.

Como exemplo da falta de serventia do projeto, evoco a seguinte lembrança: há alguns anos, era comum em todas as pizzarias a palavra “delivery” ao invés de telentrega. Na verdade, a palavra telentrega fora praticamente eliminada do vocabulário das agências de propaganda. E hodiernamente? Hodiernamente não mais defrontamo-nos com tal expressão, dado que utilizar “delivery” foi um modismo do final dos anos de 1990 e que desapareceu. O que também ocorreu com outros estrangeirismos. A maior parte deles fica em voga por alguns meses e depois os mesmos caem, substituídos pelo vocábulo em português. Aqueles que não caem, acabam aportuguesados, como ocorreu estresse. As línguas são inteligentes e se adaptam a esses estrangeirismos. Pessoalmente, acredito que a única conseqüência real desse projeto foi expor seu criador e a assembléia ao ridículo, bem como expor ao escárnio os gaúchos, além de fazer os estrangeirismos ganharem força no único lugar em que as coisas não controláveis: a rede mundial de computadores.

O grande problema do Brasil é que na hora de legislar sobre a Língua (e volto a repetir, o idioma é do povo e não dos políticos e das leis) chama-se as pessoas erradas. Onde já se viu pessoas que jamais participaram de uma discussão sobre a língua inventar projetos sobre a mesma. Poderiam chamar gramáticos, mas, com todo respeito aos gramáticos, a gramática não é nada mais que uma TEORIA de que como a língua deve ser e não mostra como a língua realmente é na prática. OK. Chamemos gramáticos, afinal eles realmente conhecem a língua, mas chamem também lingüistas, que estudam a língua também e conhecem suas possibilidades além da gramática. Mais que isso, lingüistas vêem a língua em uso, estudam as transformações que os idiomas sofrem ao longo do tempo, bem como no cotidiano. Aliás, a pergunta que surge é porque não se utilizou esse poder dado aos deputados para legislar algo mais importante como melhorias na educação? Pense bem, não é raro alunos saírem das escolas sem saber ler – e por ler entendo mais que decodificar letras e sílabas em palavras, mas compreender e interpretar – o idioma pátrio, como mostram as provas do ENEM ou as redações dos vestibulares? Por que não criar e aprovar um projeto de lei que tenha impacto real na vida dos gaúchos?

Chamo atenção para a fala do deputado na matéria abaixo. Ele refere-se apenas ao inglês. Concordo que o uso de anglicismos é predominante; entretanto, parece-me um tanto xenofóbico destacar somente um idioma, quando uma sociedade globalizada compreende o globo e não somente o EUA. E não há motivos para esquecer que cerca de cem anos atrás o idioma em voga era o francês, o que não só não decretou a morte do português, bem como nos trouxe novas palavras (garçom, abajur, etc- aliás, etc vem do latim et caetera ).

Eu francamente adoro misturar umas expressões em inglês na minha fala. Não por ter vergonha do Português, mas porque sair da normalidade, do cotidiano, fugir um pouco a regra é uma delícia. Saber utilizar expressões de outras línguas e ser entendido é também uma forma de promover cultura. Se os nossos interlocutores compreendem o que falamos, o idioma pátrio não perde, muito pelo contrário, pois brincar com a(s) língua(s) sempre enriqueceu a literatura.

Por fim, saliento que não é só porque uma frase está em português que ela é mais compreensível que uma frase cheia de estrangeirismos.

Ex. Bebi um cappuccino no cyber-café do shopping.

Bebi um café com toques de leite, chocolate, canela e baunilha no café que permite acesso à rede mundial de computadores no centro comercial.

Hodiernamente o ambiente inóspito dos centros urbanos compele-nos à irascibilidade àqueles que nos opõem.

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Memórias do subsolo, Fiódor Dostoievski

Dedicado aos meus colegas do curso Discutindo à Modernidade Literária, no qual descobrimos, numa manhã fatídica, a força desse livro. E também ao professor Ricardo Barberena que ministrou o curso e numa manhã inspirada, levou a todos nós ao subsolo e, francamente, acabou com nosso fim de semana, mas nos deu uma das melhores experiências literárias da nossa vida.

Sempre que abro meu exemplar de Memórias do Subsolo, imagino a seguinte cena: um quarto pequeno, fechado, iluminado apenas com um abajur de lâmpada incandescente, sem cúpula. A cama desfeita. Só há duas portas, a da rua e a do banheiro. Ambas fechadas, bem como as janelas. Não se sabe se é dia ou noite. O quarto tem papel de parede gasto, envelhecido. O chão é nu. Além da cama desfeita, há uma escrivaninha, com o abajur, e muitos papéis em cima. A única coisa que foge desse aspecto lúgubre são os livros. Muitos e por todo quarto. Empilhados no chão do quarto, no criado mudo ao lado da cama. Em caixas de madeira e de papelão pelos cantos do quarto. Há livros embaixo da cama e até mesmo alguns no banheiro. Livros de todos os assuntos. Um homem sai do banheiro. Sorve um gole de um café de uma térmica, sua maior companheira. Bonito, mas atirado. Ele começa a escrever. Há certa fúria nas suas ações. Ele murmura palavras desconexas e num átimo de ódio atira o tinteiro na parede. Ele se levanta e caminha pelo quarto, espumando de ódio. Senta-se de volta e, iracundo, continua uma narrativa virulenta sobre si…

Certa vez, um crítico do The Sunday Times dividiu o mundo entre aqueles que leram O Hobbit e O Senhor dos Anéis e aqueles que não leram. Eu divido a vida entre antes e depois de ler Memórias do Subsolo. Parece pretensioso, mas não é. Muito pelo contrário, é uma conclusão lógica daquilo que parece um tratado da alma do homem (pós) moderno: não há mais esperanças, não há mais ideologias, não mais lugar no mundo para certos homens.

Esse “homem do subsolo” não é qualquer homem. Ele é o chamado herói do pensamento, uma pessoa com plena consciência de quem é: nada/ninguém. A maior derrota desse homem foi ter se tornado, contra todas as expectativas, um fracasso. Ele é um homem inteligente, racional, tem pleno conhecimento do mundo a sua volta. Estudou, talvez tenha viajado. Ele se destaca dos outros, pois está acima da média. Mas ele é um fracasso, pois é vítima de si mesmo. Esse homem do subsolo sofre do mal da hiperconsciência. Ele sabe que é limitado, frívolo, mau, fraco. Sofre com a culpa, tem um complexo de superioridade misturado com um complexo de inferioridade, é irritadiço e mesquinho. Em suma, ele é humano. O que o diferencia dos outros, é que ele percebe tudo isso. Se outrora se acreditava que a consciência libertaria o homem, o homem do subsolo veio para provar que é justamente o contrário: a consciência aprisiona, escraviza, danifica. Esse homem sabe que nunca será nada mais do que é hoje. E se odeia. Se odeia pelo que ele é e se odeia também pelo que poderia ter sido.           Ele vive numa sociedade que não tem mais lugar para ele. Seu oposto, os homens de ação, os homens que agem, são os donos desse mundo (como sempre o foram) e não importa o quão limitado esses homens possam ser, nada vai lhes tirar seu lugar. O homem do subsolo está relegado ao subsolo justamente por não saber ou não poder agir.

Entretanto, apesar de sua amargura e da percepção do que é, do reconhecimento de sua sordidez, de sua nadificação, o homem do subsolo não mudaria, em nada, quem ele é. Ele cometeria os mesmos erros, sem esperar resultado diferente. O protagonista de Memórias, por exemplo, conta um episódio de sua juventude no qual se humilhou ante diversos conhecidos (os quais ele desprezava por serem intelectualmente inferiores a ele). Não só o protagonista se humilhou, como também sentiu um prazer mesquinho nisso. Embora a história lhe cause um certo mal estar –bem como ao leitor-, ele a conta e sabe que não mudaria nada daquele evento. O prazer está na humilhação, na provação. Acima de tudo, ele se odeia. E esse ódio é a sua força motriz, por que afinal, é a única coisa que realmente lhe resta.

Ele é um solitário. E sua solidão é tão profunda que só lhe resta o subsolo. Compreenda, o subsolo aqui não é literal, mas uma representação simbólica da mente do protagonista: fria e escura, lugar que se teme, pois é lá onde enterramos os mortos, ou no caso do homem, onde ele enterra a ele mesmo. Ele é tão solitário que nem mesmo nome tem. O fato de não ter um nome contribui para esses sentimentos de encarceramento, de incompletude, de perdição. Sem nome ou sobrenome, o ser não é, não tem identidade plena. É quase como se não existisse. Além disso, o anonimato faz com que ele possa ter qualquer nome, inclusive o nosso. E é por isso, por ele poder ter o nosso nome, que a vida se divide em antes e depois de Memórias do Subsolo. Porque após ler a obra, você pode se identificar ou não com o protagonista. Se não se enxergar nele, ótimo. Agora, se você reconhecer, sinto muito.

Só posso encerrar dizendo: leiam. Leiam sem medo da resposta que vocês vão encontrar. Leiam porque é uma das obras mais fantástica da Literatura (sim com L maiúsculo) mundial. Leiam porque é Dostoievski na sua melhor forma. Leiam porque vale a pena. Leiam porque é delicioso. Leiam porque mesmo se vocês se reconhecerem, nós temos a vantagem de estarmos num século que se pode ser tudo, de todas as maneiras e não apenas sermos seres do subsolo. E leiam também porque é verdadeiro. Numa sociedade que é tão fácil fingir, o livro é um retrato da alma humana e o protagonista não tem medo de mostrar sua verdadeira face, nem se envergonha dela. Memórias do Subsolo é sobre o ser, não sobre o parecer.

Novamente vejo o homem. Ele continua sentado na escrivaninha. O café acabou e ele a substituiu por whisky. Ou vodka. Ele termina de escrever suas memórias. Parece cansado, arrasado. Escrever o consumiu demais. Encarando o volumoso monte de papel, ele puxa a lixeira para perto de si, joga seu trabalho de horas no lixo, despeja o resto do whisky/vodka e acende um fósforo. Tudo é consumido em questão de segundos. O homem sabe que é estéril. Não há amor para ele. Não deixará esposa, filhos, amante. Não deixará qualquer espécie de fruto, nem mesmo as palavras que marcam sua condição. Ele é tão seco quanto o subsolo que o define. Em seu solo nada crescerá. Jamais. Finda a tarefa, ele sai às ruas – seja de São Petersburgo, onde se desenrola a história, seja de Londres, de Nova Iorque, de Paris – e percebe que já é noite. Por um instante, a beleza da lua, das estrelas, do breu da noite o toca, mas só por um instante. Ele sabe que tudo é vazio. Então sai vagando pela escuridão enquanto fuma seu cigarro. Tudo é efêmero. Tudo é inútil.

Gabriela Schwingel Ferreira

p.s.1: O título também foi  traduzido como Memórias do Subterrâneo, Notas do Subterrâneo, Notas do Subsolo.

p.s.2: Não leia esse livro se estiver se sentido deprimido. Falo sério.

p.s.3: Descobri que sou uma mulher do subsolo. Não foi nada divertido.

p.s.4: Recomendo o curta desse livro.

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Ronaldinho “Gaúcho”, o filme

Gabriela Schwingel Ferreira

As luzes de 2010 começavam a apagar. Eram os últimos dias do ano e o cinema começou sua sessão: Ronaldinho “Gaúcho” o filme, classificado como romance, a narrativa flerta com todos os gêneros: do chamado dramalhão mexicano, passando pela comédia e até mesmo o pastelão.

A história começa bem amarrada. Um amor do passado ressurge na vida do ex-craque, até pouco tempo atrás reserva do Milan. O flerte entre Grêmio e Ronaldinho é tão óbvio que intriga. O espectador mais acostumado com as grandes histórias de amor sabe que não pode sair nada dalí. O protagonista já havia traído o primeiro amor anteriormente… Declarações de amor são trocadas. Demonstrações de afeto público são vistas e ouvias. O telejornal local anuncia o casamento e… surge um adversário. Ou melhor, dois. Palmeiras e Flamengo anunciam que também querem o jovem (nem tão jovem assim, já que ter trinta e um anos no futebol é praticamente estar no final de careira). Esse é o primeiro momento de clímax do filme: o drama tinge as telas. Mas Ronaldinho e Grêmio continuam firmes e fortes em seu romance.

O gênero fílmico troca. O filme parece um leilão (aparentemente, com apoio do canal rural). A história se complica! O astro (de) cadente fica balançado… Assis, o irmão/conselheiro/empresário, resolve ajudar o irmãozinho. E o leilão casa com o circo e os torcedores assistem os palhaços fazerem sua patética apresentação. Cada pretendente tem suas qualidades: cachês milionários, os quais aliás excedem e muito a folha de pagamento dos outros jogadores, amor da torcida, cobertura da mídia. O menino prodígio poderia ter tudo o quer. Mas o que ele quer? Paz com seus antigos torcedores gremistas? As praias e baladas cariocas? Um salário mais alto? Ninguém sabe. O filme fica longo demais e vira uma novela. Uma novela bem fraca, mas ainda assim o Brasil para pra descobrir seu final. Ninguém mais quer saber quem matou Odete Roitman, todo mundo quer saber quem comprará contratará Ronaldinho “Gaúcho”. O Grêmio, crente que o contrato escrito no início do filme será assinado, prepara uma festa. Os torcedores cruzam os dedos e numa reviravolta espetacular, o Corinthians proclama seu amor pelo rapaz baladeiro. O Grêmio joga sua carta final; a Seleção. O Brasil fica intrigado, afinal o Ronaldinho NUNCA se destacou na seleção brasileira…

O cinema começa a esvaziar. Metade dos espectadores está cansado da super promoção ao redor do ex-craque (aliás, muitas empresas de marketing querem contratar os responsáveis pelas negociações do jogador, afinal nunca na história desse país se falou tanto num jogador que não vai mais jogar na Europa, exceto pelo goleiro Bruno, ex-Flamengo). Nos minutos finais, quando o Grêmio já havia aberto a champagne, o Flamengo mostra que o escurinho do cinema serve mais para negociações com o Milan que para assistir filmes e no último segundo do dramalhão, anuncia os 99,9% de chance de ter o garoto nas suas praias nos seus treinos. Os gremistas viram piada mundial, os colorados dividem-se entre o escárnio e a empatia. O cinema apaga as suas luzes e o Flamengo avança na sua tentativa estóica de eliminar a mancha de sangue que Bruno jogou no clube. Resta saber se o ex-melhor jogador do mundo valerá o investimento ou continuará no banco. Ou na praia. Ou na balada.

A crítica acima é uma piada e baseia-se nas afirmações vinculadas na mídia.

http://globoesporte.globo.com/futebol/times/gremio/noticia/2011/01/presidente-do-gremio-encerra-assunto-ronaldinho-gaucho.html

http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2011/01/assis-nega-acordo-de-ronaldinho-com-o-flamengo.html

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Hello world!

Pretendo fazer críticas literárias. Pelo menos, a maioria dos posts serão sobre livros. Mas também escreverei sobre filmes e séries que assisti e que quero dividir a opinião com vocês, leitores. Por fim, algumas vezes, quando meu sangue estiver fervendo, vou escrever algum texto sobre o assunto. E não esqueçam, quem posta em blogs precisa dos comentários.

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